“E nossos
sonhos foram enterrados no topo de uma chaminé”, o velho louco costumava me
falar no banco da praça aonde jogávamos xadrez. Samuel, era seu nome. Eu não
sabia jogar xadrez, mas Samuel pacientemente me ensinava a cada movimento
errado com a torre, o cavalo ou o bispo. Samuel faleceu uns poucos anos depois,
vítima de insuficiência renal, ou alguma coisa do tipo, dessas coisas que
acometem os velhos quando o seu tempo de sofrimento nesse plano chega ao fim.
Me mudei de casa dia desses. Deixei o velho quarto e as velhas memórias e
voltei para a casa dos meus pais. Nela há uma chaminé, que quase nunca é ligada
porque não faz muito frio no Brasil. Lembrei de Samuel, do xadrez e de seu
velho ditado, que ele murmurava com os olhos virados como se estivesse
revivendo outra vida, em outra época e com outra companhia. E nossos sonhos
forram enterrados no topo de uma chaminé.
quinta-feira, março 29, 2018
quarta-feira, março 21, 2018
segunda-feira, fevereiro 19, 2018
domingo, janeiro 28, 2018
Chore, amigo. Chore porque as lágrimas são os pingos de chuva da alma. São o banho de nossos sonhos e memórias. São lembranças líquidas que atravessam nossos olhos para nos lembrar que estamos vivos e vivemos, e para honrar aqueles cujos olhos já se fecharam e não choram mais. Chore por você, por nós e por eles. Chore de alegria e de tristeza. Chore porque as lágrimas vão limpar nossos dias, e porque algum dia alguém também há de chorar por nós.
quarta-feira, janeiro 17, 2018
sexta-feira, janeiro 05, 2018
sexta-feira, dezembro 22, 2017
é essa tristeza maltrapilha que se apodera de nós
homens e mulheres com 20 e poucos, 30 e poucos,
40 e poucos, 50 e poucos, e por toda a vida
rangendo nossos dentes amarelados e
cobrando prestações do amor que não temos,
que já tivemos, e que perdemos
apostando na roleta das emoções
fastigados pela crueza dos relógios
dos escritórios, dos bares
e das noites intermináveis
no escuro breu de nossos sentimentos.
e por isso, fantasma
atiro-lhe meus últimos dois centavos
em moedas de cobre que consegui com um mercador etíope
em outra encarnação, no Egito, no séc. XIX
porque a história supera qualquer drama
e os deuses têm um lugar especial para nós
que vivemos, e sofremos, e morremos
ontem, hoje ou amanhã.
homens e mulheres com 20 e poucos, 30 e poucos,
40 e poucos, 50 e poucos, e por toda a vida
rangendo nossos dentes amarelados e
cobrando prestações do amor que não temos,
que já tivemos, e que perdemos
apostando na roleta das emoções
fastigados pela crueza dos relógios
dos escritórios, dos bares
e das noites intermináveis
no escuro breu de nossos sentimentos.
e por isso, fantasma
atiro-lhe meus últimos dois centavos
em moedas de cobre que consegui com um mercador etíope
em outra encarnação, no Egito, no séc. XIX
porque a história supera qualquer drama
e os deuses têm um lugar especial para nós
que vivemos, e sofremos, e morremos
ontem, hoje ou amanhã.
domingo, dezembro 17, 2017
Noite no deserto
À noite as estrelas dormem
Nós inspiramos, expiramos
Enquanto nossos sonhos brilham no céu.
Nós inspiramos, expiramos
Enquanto nossos sonhos brilham no céu.
quarta-feira, novembro 01, 2017
Halloween
Há algo em
Avenidas cheias e ônibus lotados
No corrente fluxo imparável das cidades
Que me faz pensar em minha mortalidade e
Na das pessoas que conheço, conheci
E que ainda vou conhecer.
Quando esses sentimentos
Se apossam de mim
Gosto de olhar ao redor e
Anotar rabiscos sobre
Olhares cotidianos.
Um garoto de uns três ou quatro anos
Vestido como o homem aranha
Comenta excitado com a mãe:
"É halloween!"
E crianças batem em portas
Em busca de doces na
noite fria de outubro em Londres.
E novamente penso em minha mortalidade
E na de meu pai, de minha mãe, de meu irmão
Daquela mulher e até mesmo do garotinho.
E respiro fundo, conto até três e vou pra casa e
Abro um vinho e faço o jantar
E ainda penso que um dia
Em uma página empoeirada
Essas linhas mal formadas vão estar.
A mortalidade é só um caminho
Mais longo e confuso
Até a eternidade.
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