Seria bem mais interessante se eu soubesse escrever de
verdade. Sentar, criar uma história, desenvolver os personagens e admirar a
obra completa. Mas não é assim que funciona. Nem todo mundo pode ser
Dostoiévski, e essas são coisas que nós temos que aceitar. Além de tudo, não há
nada de mal em ficar por aqui. A esperança continua intacta, os sonhos também.
A parte boa de não alcançar o que você deseja
é que você nunca vai se decepcionar. Não há decepção na solidão. A
solidão é cruel mas também é muito honesta. A solidão vai acabar com a tua
vida, vai te deixar em desespero e vai fazer você se sentir horrível, mas ela
sempre vai ser honesta. E tua esperança vai continuar ali, intacta. Não importe
o que aconteça, quanto tempo passe ou o quantas pessoas você conheça, a tua esperança
não vai te abandonar. Esqueça tudo isso, garoto. É a mais pura e simples
mentira. Você acha que eles estão felizes? Oh, Deus, olha só pra cara desses
idiotas. Eles se agarram aos seus amantes e aos seus santos como se eles
realmente valessem alguma coisa. Eles acreditam em palavras furadas, em
promessas não cumpridas e acham que no fundo do horizonte há algo reservado
para eles. E eles realmente acham que estão no caminho certo e que estão
fazendo a coisa certa. Eles nem imaginam o que é atingir a verdadeira
consciência. Eles não sabem de coisa alguma, tampouco você, mas ao menos você é
honesto, garoto. Sua esperança não te abandonou nem te trocou por um sermão de
igreja ou por uma declaração de amor. Sua esperança é real e cruel, assim como
sua solidão. É só assim que você vai chegar lá, é só assim que você continua a
caminhar. Pro inferno com eles, você nunca precisou e nunca irá precisar desses
cretinos. Um dia eles vão perceber todos os erros que cometeram, e aí já vai
ser tarde demais. Você cometeu belos e
colossais erros, mas eles ainda assim foram parte importante da sua
vida. Você soube admirar seus erros e aprender com cada um deles. Mesmo
naqueles que você insistiu, você soube aprender. Não é fácil apanhar tanto e
continuar de pé. É preciso ser forte e ter esperança. Eles não tem esperança,
mas você ainda tem. Não deixe ela ir embora, e não deixe eles te dizerem o que
fazer. Um dia tudo estará bem, e não haverá mais desespero. Eles continuarão
vivendo suas vidas de mentira, sem solidão, sem esperança. Você continuará com
elas, entenderá seu valor e saberá apreciar seus próprios feitos. Siga em
frente, não desista. O sol sempre brilha pra quem vive nas trevas, e Deus sabe
que você passou muito tempo vagando por elas.
segunda-feira, outubro 15, 2012
Um dia você desiste. É mais fácil do que parece, mas você
desiste. É uma bobagem falar em desistir antes dos 30 anos, eu sei disso, eu
sempre soube disso, mas eu falava em desistir antes mesmo dos 20. Aí um dia eu
desisti de verdade. Eu achei que esse dia nunca ia chegar. Eu me sentava em
frente ao computador e teclava furiosamente. Eu tentava tirar alguma vida
daquilo ali, mas a vida nunca vinha. Depois eu tentei tirar a morte, chamar a
morte, amar a morte. Mas a morte também não veio. A gente é tão tolo que acha
que pode controlar quando a morte vai vir. Mas não, a gente não pode não. É o
seguinte, meu caro: a gente tá lascado, e temos que seguir em frente. É assim
que funciona, não é mesmo? Veja só todos eles lá fora. Eles continuam seguindo
em frente. Se começa a chover, eles sacam o guarda-chuva ou correm até uma
marquise e ficam por ali, admirando a vida e esperando a água parar de cair. Eu
costumava ser como um deles, talvez até melhor. Ou pior, eu acho que nunca vou
saber. Eu só sei que eu corria até uma marquise e ficava cantarolando uma
música do The Who e vendo todo mundo passar na minha frente. Mas eu cansei de
ficar olhando pros outros na marquise, e vi todo mundo passar e ir embora. Eu
continuei por ali, continuei cantando The Who, mas hoje, quando chove, eu só
continuo andando. Acho que é o que eles chamam de crescer. Agora eu sinto os
pingos caindo na minha cabeça, e eu já não me importo mais. Eu devia me
importar, mas eu não me importo. Talvez eu nunca tenha me importado. Esse foi
meu grande erro. Mas que diabos, não é mesmo? Eu cometi um milhão deles, e com
certeza vou cometer outros milhões. É assim que é, e não adianta reclamar. As
pessoas se arranjam. Elas arranjam namorados, casam, tem filhos, conseguem
novos empregos. Nada disso devia importar muito, como não importa. Posso me
contentar em descolar uma garrafa de vinho e ouvir um disco do Lovin’ Spoonful
ou de qualquer outra banda. Na verdade, posso pensar em poucas coisas tão boas como
essa. O vento fica soprando, como sempre soprou, e a minha janela já não parece
tão desoladora. Agora a visão já me é familiar, e eu não estou mais assustado.
Eu estou preparado pro que der e vier. Ainda não é hora de me mandar, ainda não
é hora de desistir. Eu posso até ter desistido, mas eu tenho certeza que alguma
coisa lá fora não desistiu de mim. E eu vou continuar esperando até ela vir. Eu
realmente não me importo o quanto demore, contanto que eu possa ficar aqui
dentro com minha garrafa de vinho. Espero que os pingos de chuva continuem
caindo nos meus ombros e que as pessoas continuem embaixo das marquises. De
alguma forma, isso me traz uma espécie de conforto, e isso é quase tudo o que
eu sempre desejei.
quinta-feira, outubro 04, 2012
terça-feira, outubro 02, 2012
sexta-feira, setembro 28, 2012
Meia dúzia de sambas na orla carioca
Meus problemas eram existenciais. Isso mesmo, existenciais. Eu
tinha tentado evitar ser um desses patetas que ficam pensando sobre a própria vida
durante muito tempo, mas tinha sido em vão. Agora eu era um pateta, e um pateta
tarimbado. Eu pensava que eu podia ter dado certo em alguma. “Oh, Deus, eu
deveria ter sido um advogado”, falava pra mim mesmo. É óbvio que era pura
bobagem. Eu detestava advogados e toda e qualquer burocracia. Eu só não queria
ter me metido nesse erro crasso de ter virado jornalista e de ter sonhado em
ser escritor um dia. “Seria bem melhor se eu tivesse sido um escritor, mesmo um
de merda”, era o que eu pensava. Mas talvez não tivesse sido melhor coisíssima nenhuma.
Afinal de contas, eu ainda era um escritor. Eu escrevia matérias, entrevistava
pessoas e aguentava todo o tipo de chateação naquela redação. A revisora, uma
mulher na meia idade amargurada com a vida, sentava atrás de mim e passava o
tempo todo reclamando. “Vocês estão falando muito alto, silêncio que eu quero
trabalhar!”, era o que a velha berrava. Sua voz, típica de mulheres de meia
idade que passaram trinta anos de sua vida fumando, era tão irritante quanto
seus trejeitos. E eu ficava ali, tentando fazer algumas piadas e fazer qualquer
tipo de bobagem. Colocava meus fones de ouvido e selecionava um disco qualquer.
Aí me ligava na música e ficava pensando aonde diabos eu tinha me metido. Mas
eu sabia aonde eu tinha me metido, eu sabia muito bem aonde eu tinha me metido.
Eu tinha seguido a cartilha, andando na linha, aceitado as “oportunidades”
(Deus, como eu odeio essa palavra), e tinha acabado ali. De nada adiantou ter
sido um adolescente idiota, fã de livros do Jack Kerouac e discos dos Stones.
De nada adiantou ter passado tanto tempo bebendo, tanto tempo me apaixonando e
levando fora de garotas na esperança de que aquilo me renderia um belíssimo e
original poema, de nada adiantou ter fugido da escola, ter arrumado brigas, ter
usado drogas. Eu tinha tentado subverter o sistema, mas ali estava eu, fodido
pelo sistema. Eu estava sendo fodido pelo sistema e não dava nenhum sinal de reação. A velha continuava a reclamar
atrás de mim. Seus gritos em tom lamentoso e chateador se misturavam aos gritos
do Tim Maia nos meus fones de ouvido. Pai do céu, o que eu fiz pra merecer
isso? Eu andava pensando em ir pro Rio de Janeiro. Por que diabos eu iria pro
Rio de Janeiro? Eu não sei mesmo. Só pensei que seria divertido ficar por lá,
andando pela orla e vendo todos aqueles turistas e banhistas bobos, molhando o
pé na água do mar e bebendo nos bares. Quem sabe eu não compunha uma meia dúzia
de sambas de dor-de-cotovelo e dava pra algum músico mais talentoso ganhar? Isso
poderia ser legal, pensei, é, poderia ser muito legal. Mas não era. Não ali, na
frente daquele computador antiquado, digitando meia dúzia de matérias sobre
qualquer bobagem que estivesse acontecendo no mundo. Eu não dava a mínima pro
que tava acontecendo no mundo, eu só queria andar por umas ruas desconhecidas,
ver umas garotas de biquíni e beber umas cervejas. Era exatamente isso que eu
queria. Mas eu estava muito longe, eu estava absurdamente longe de qualquer
coisa que eu tinha desejado. Eu andava xavecando uma garota pra ir ao cinema
comigo. Ela desmarcou três vezes consecutivas. Desisti e fui sozinho. “O filme
é mó bom, ainda bem que ela não veio”, fiquei pensando comigo mesmo. Mas eu
sabia que aquilo não era verdade. Eu sabia que nada daquilo era verdade.
“You can't go back home to your family, back home to your childhood, back home to romantic love, back home to a young man's dreams of glory and of fame, back home to exile, to escape to Europe and some foreign land, back home to lyricism, to singing just for singing's sake, back home to aestheticism, to one's youthful idea of 'the artist' and the all-sufficiency of 'art' and 'beauty' and 'love,' back home to the ivory tower, back home to places in the country, to the cottage in Bermude, away from all the strife and conflict of the world, back home to the father you have lost and have been looking for, back home to someone who can help you, save you, ease the burden for you, back home to the old forms and systems of things which once seemed everlasting but which are changing all the time--back home to the escapes of Time and Memory.”
Thomas Wolfe
segunda-feira, setembro 24, 2012
Talvez
Talvez seja
porque eu passei muito tempo em bares
Acertando
todos os erros possíveis.
Talvez seja
porque meu único sucesso
Foi ser um
fracasso.
Talvez seja
porque eu tentei cria meu personagem
E me perdi
em minha própria história de horror.
Talvez seja
porque eu nunca me importei muito
Ou porque eu
me importei demais.
Talvez seja
porque você foi embora
Ou porque eu
nunca te conheci.
Talvez seja
porque eu compro esses discos
Com essas músicas
tristes
Que eu escuto
sem parar.
Talvez seja
porque eu ainda sou novo
Ou porque pareça
tão velho.
Talvez seja
porque eu ainda te ame
Mesmo nem
sabendo quem você é.
Talvez seja
porque eu fugi da Igreja
Quando eu
era só um garoto.
Talvez seja
um castigo dos céus
Ou meu
próprio desejo.
Talvez seja
porque eu escolhi
Ou porque eu
fiz o que não devia.
Talvez seja
porque eu ainda te ame
Mesmo não
sabendo quem você é.
Talvez seja
minha honestidade
Ou minha
falta de caráter.
Talvez seja
as bobagens que faço bêbado
Ou os poemas
que escrevo.
Talvez seja
porque os anos passem
E eu
continue o mesmo.
Talvez seja
porque os anos passem
E eu
continue com medo.
Talvez seja
porque eu ainda te amo
Mesmo não
sabendo quem você é.
Talvez seja
porque eu ainda me amo
Mesmo não
sabendo quem eu sou.
Ou talvez
não.
Talvez eu
não saiba explicar
Talvez eu
não saiba chorar
Não saiba
sentir
Não saiba
amar.
Talvez eu
seja o culpado
Talvez eu
esteja condenado
Talvez minha
vida esteja acabando
Talvez eu esteja
me matando.
Talvez eu
pule da ponte
Talvez eu
saia de viagem
Talvez eu
compre uma passagem
E vá direto
pra Bogotá.
Talvez eu vá
para o céu
Talvez eu vá
para o inferno
Talvez deus
eu sobreviva
Talvez eu me
vá.
Talvez você
volte
Talvez eu me
solte
Das garras
que insistem
Em me
acorrentar.
Talvez
porque eu ainda te ame
Mesmo sem
saber
Quem você é.
domingo, setembro 23, 2012
Olha só, eu vou me exilar. Eu vou daqui pra outro lugar.
Pessoas como eu só funcionam quando estão sofrendo. Eu deixei a minha cidade no
Paraná pra vir pra São Paulo, e agora eu quero deixar São Paulo pra ir lá pra
fora. Não é nada pessoal contra o Brasil, pelo contrário, eu adoro esse País. A
questão é que eu preciso me sentir isolado pra conseguir viver. Eu não fui
feito pra ver as coisas darem certo, você entende? Eu aceito a solidão e todos
os problemas que ela traz com ela. Eu vejo isso quase como uma benção. Mas eu
também vejo como uma maldição. Eu continuo sendo essa pessoa medrosa. Acho que
vai ser assim pra sempre. Meu Deus, que alguém me ajude, porque tem sido cada
vez mais difícil. Vocês nem imaginam o quanto.
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