segunda-feira, outubro 15, 2012


Seria bem mais interessante se eu soubesse escrever de verdade. Sentar, criar uma história, desenvolver os personagens e admirar a obra completa. Mas não é assim que funciona. Nem todo mundo pode ser Dostoiévski, e essas são coisas que nós temos que aceitar. Além de tudo, não há nada de mal em ficar por aqui. A esperança continua intacta, os sonhos também. A parte boa de não alcançar o que você deseja  é que você nunca vai se decepcionar. Não há decepção na solidão. A solidão é cruel mas também é muito honesta. A solidão vai acabar com a tua vida, vai te deixar em desespero e vai fazer você se sentir horrível, mas ela sempre vai ser honesta. E tua esperança vai continuar ali, intacta. Não importe o que aconteça, quanto tempo passe ou o quantas pessoas você conheça, a tua esperança não vai te abandonar. Esqueça tudo isso, garoto. É a mais pura e simples mentira. Você acha que eles estão felizes? Oh, Deus, olha só pra cara desses idiotas. Eles se agarram aos seus amantes e aos seus santos como se eles realmente valessem alguma coisa. Eles acreditam em palavras furadas, em promessas não cumpridas e acham que no fundo do horizonte há algo reservado para eles. E eles realmente acham que estão no caminho certo e que estão fazendo a coisa certa. Eles nem imaginam o que é atingir a verdadeira consciência. Eles não sabem de coisa alguma, tampouco você, mas ao menos você é honesto, garoto. Sua esperança não te abandonou nem te trocou por um sermão de igreja ou por uma declaração de amor. Sua esperança é real e cruel, assim como sua solidão. É só assim que você vai chegar lá, é só assim que você continua a caminhar. Pro inferno com eles, você nunca precisou e nunca irá precisar desses cretinos. Um dia eles vão perceber todos os erros que cometeram, e aí já vai ser tarde demais. Você cometeu belos e  colossais erros, mas eles ainda assim foram parte importante da sua vida. Você soube admirar seus erros e aprender com cada um deles. Mesmo naqueles que você insistiu, você soube aprender. Não é fácil apanhar tanto e continuar de pé. É preciso ser forte e ter esperança. Eles não tem esperança, mas você ainda tem. Não deixe ela ir embora, e não deixe eles te dizerem o que fazer. Um dia tudo estará bem, e não haverá mais desespero. Eles continuarão vivendo suas vidas de mentira, sem solidão, sem esperança. Você continuará com elas, entenderá seu valor e saberá apreciar seus próprios feitos. Siga em frente, não desista. O sol sempre brilha pra quem vive nas trevas, e Deus sabe que você passou muito tempo vagando por elas.

Um dia você desiste. É mais fácil do que parece, mas você desiste. É uma bobagem falar em desistir antes dos 30 anos, eu sei disso, eu sempre soube disso, mas eu falava em desistir antes mesmo dos 20. Aí um dia eu desisti de verdade. Eu achei que esse dia nunca ia chegar. Eu me sentava em frente ao computador e teclava furiosamente. Eu tentava tirar alguma vida daquilo ali, mas a vida nunca vinha. Depois eu tentei tirar a morte, chamar a morte, amar a morte. Mas a morte também não veio. A gente é tão tolo que acha que pode controlar quando a morte vai vir. Mas não, a gente não pode não. É o seguinte, meu caro: a gente tá lascado, e temos que seguir em frente. É assim que funciona, não é mesmo? Veja só todos eles lá fora. Eles continuam seguindo em frente. Se começa a chover, eles sacam o guarda-chuva ou correm até uma marquise e ficam por ali, admirando a vida e esperando a água parar de cair. Eu costumava ser como um deles, talvez até melhor. Ou pior, eu acho que nunca vou saber. Eu só sei que eu corria até uma marquise e ficava cantarolando uma música do The Who e vendo todo mundo passar na minha frente. Mas eu cansei de ficar olhando pros outros na marquise, e vi todo mundo passar e ir embora. Eu continuei por ali, continuei cantando The Who, mas hoje, quando chove, eu só continuo andando. Acho que é o que eles chamam de crescer. Agora eu sinto os pingos caindo na minha cabeça, e eu já não me importo mais. Eu devia me importar, mas eu não me importo. Talvez eu nunca tenha me importado. Esse foi meu grande erro. Mas que diabos, não é mesmo? Eu cometi um milhão deles, e com certeza vou cometer outros milhões. É assim que é, e não adianta reclamar. As pessoas se arranjam. Elas arranjam namorados, casam, tem filhos, conseguem novos empregos. Nada disso devia importar muito, como não importa. Posso me contentar em descolar uma garrafa de vinho e ouvir um disco do Lovin’ Spoonful ou de qualquer outra banda. Na verdade, posso pensar em poucas coisas tão boas como essa. O vento fica soprando, como sempre soprou, e a minha janela já não parece tão desoladora. Agora a visão já me é familiar, e eu não estou mais assustado. Eu estou preparado pro que der e vier. Ainda não é hora de me mandar, ainda não é hora de desistir. Eu posso até ter desistido, mas eu tenho certeza que alguma coisa lá fora não desistiu de mim. E eu vou continuar esperando até ela vir. Eu realmente não me importo o quanto demore, contanto que eu possa ficar aqui dentro com minha garrafa de vinho. Espero que os pingos de chuva continuem caindo nos meus ombros e que as pessoas continuem embaixo das marquises. De alguma forma, isso me traz uma espécie de conforto, e isso é quase tudo o que eu sempre desejei.

Tudo o que você precisa fazer aos 22 anos é escutar um monte de música boa, ler uma porrada de livros e continuar vivo. O resto é bobagem.

quinta-feira, outubro 04, 2012

We can't escape our fate.

terça-feira, outubro 02, 2012


oh baby, ainda me lembro
daqueles belos dias
despedaçados pela memória
despedaçados por meus próprios erros
veja bem,
eu cometi diversos deles
e pretendo cometer muitos outros
até o fim da minha vida.
isso é um pecado?
se for
eu já estou condenado.

sexta-feira, setembro 28, 2012


aos 16 queria ser Kerouac
aos 17 pensou que era Bukowski
com 18 tentou ser Fante
nos 19 se encantou com Leminski
aos 20 achou que era Dostoiévski
com 21 se apaixonou por Rimbaud
nos 22 só pensava em ser Oscar Wilde
aos 23 desistiu
com 24 fugiu
aos 25 morreu
e os poemas dele
ninguém nunca leu.

Meia dúzia de sambas na orla carioca


Meus problemas eram existenciais. Isso mesmo, existenciais. Eu tinha tentado evitar ser um desses patetas que ficam pensando sobre a própria vida durante muito tempo, mas tinha sido em vão. Agora eu era um pateta, e um pateta tarimbado. Eu pensava que eu podia ter dado certo em alguma. “Oh, Deus, eu deveria ter sido um advogado”, falava pra mim mesmo. É óbvio que era pura bobagem. Eu detestava advogados e toda e qualquer burocracia. Eu só não queria ter me metido nesse erro crasso de ter virado jornalista e de ter sonhado em ser escritor um dia. “Seria bem melhor se eu tivesse sido um escritor, mesmo um de merda”, era o que eu pensava. Mas talvez não tivesse sido melhor coisíssima nenhuma. Afinal de contas, eu ainda era um escritor. Eu escrevia matérias, entrevistava pessoas e aguentava todo o tipo de chateação naquela redação. A revisora, uma mulher na meia idade amargurada com a vida, sentava atrás de mim e passava o tempo todo reclamando. “Vocês estão falando muito alto, silêncio que eu quero trabalhar!”, era o que a velha berrava. Sua voz, típica de mulheres de meia idade que passaram trinta anos de sua vida fumando, era tão irritante quanto seus trejeitos. E eu ficava ali, tentando fazer algumas piadas e fazer qualquer tipo de bobagem. Colocava meus fones de ouvido e selecionava um disco qualquer. Aí me ligava na música e ficava pensando aonde diabos eu tinha me metido. Mas eu sabia aonde eu tinha me metido, eu sabia muito bem aonde eu tinha me metido. Eu tinha seguido a cartilha, andando na linha, aceitado as “oportunidades” (Deus, como eu odeio essa palavra), e tinha acabado ali. De nada adiantou ter sido um adolescente idiota, fã de livros do Jack Kerouac e discos dos Stones. De nada adiantou ter passado tanto tempo bebendo, tanto tempo me apaixonando e levando fora de garotas na esperança de que aquilo me renderia um belíssimo e original poema, de nada adiantou ter fugido da escola, ter arrumado brigas, ter usado drogas. Eu tinha tentado subverter o sistema, mas ali estava eu, fodido pelo sistema. Eu estava sendo fodido pelo sistema e não dava nenhum sinal de reação. A velha continuava a reclamar atrás de mim. Seus gritos em tom lamentoso e chateador se misturavam aos gritos do Tim Maia nos meus fones de ouvido. Pai do céu, o que eu fiz pra merecer isso? Eu andava pensando em ir pro Rio de Janeiro. Por que diabos eu iria pro Rio de Janeiro? Eu não sei mesmo. Só pensei que seria divertido ficar por lá, andando pela orla e vendo todos aqueles turistas e banhistas bobos, molhando o pé na água do mar e bebendo nos bares. Quem sabe eu não compunha uma meia dúzia de sambas de dor-de-cotovelo e dava pra algum músico mais talentoso ganhar? Isso poderia ser legal, pensei, é, poderia ser muito legal. Mas não era. Não ali, na frente daquele computador antiquado, digitando meia dúzia de matérias sobre qualquer bobagem que estivesse acontecendo no mundo. Eu não dava a mínima pro que tava acontecendo no mundo, eu só queria andar por umas ruas desconhecidas, ver umas garotas de biquíni e beber umas cervejas. Era exatamente isso que eu queria. Mas eu estava muito longe, eu estava absurdamente longe de qualquer coisa que eu tinha desejado. Eu andava xavecando uma garota pra ir ao cinema comigo. Ela desmarcou três vezes consecutivas. Desisti e fui sozinho. “O filme é mó bom, ainda bem que ela não veio”, fiquei pensando comigo mesmo. Mas eu sabia que aquilo não era verdade. Eu sabia que nada daquilo era verdade. 

“You can't go back home to your family, back home to your childhood, back home to romantic love, back home to a young man's dreams of glory and of fame, back home to exile, to escape to Europe and some foreign land, back home to lyricism, to singing just for singing's sake, back home to aestheticism, to one's youthful idea of 'the artist' and the all-sufficiency of 'art' and 'beauty' and 'love,' back home to the ivory tower, back home to places in the country, to the cottage in Bermude, away from all the strife and conflict of the world, back home to the father you have lost and have been looking for, back home to someone who can help you, save you, ease the burden for you, back home to the old forms and systems of things which once seemed everlasting but which are changing all the time--back home to the escapes of Time and Memory.”

Thomas Wolfe

segunda-feira, setembro 24, 2012

Talvez


Talvez seja porque eu passei muito tempo em bares
Acertando todos os erros possíveis.
Talvez seja porque meu único sucesso
Foi ser um fracasso.

Talvez seja porque eu tentei cria meu personagem
E me perdi em minha própria história de horror.

Talvez seja porque eu nunca me importei muito
Ou porque eu me importei demais.
Talvez seja porque você foi embora
Ou porque eu nunca te conheci.

Talvez seja porque eu compro esses discos
Com essas músicas tristes
Que eu escuto sem parar.

Talvez seja porque eu ainda sou novo
Ou porque pareça tão velho.
Talvez seja porque eu ainda te ame
Mesmo nem sabendo quem você é.

Talvez seja porque eu fugi da Igreja
Quando eu era só um garoto.
Talvez seja um castigo dos céus
Ou meu próprio desejo.

Talvez seja porque eu escolhi
Ou porque eu fiz o que não devia.
Talvez seja porque eu ainda te ame
Mesmo não sabendo quem você é.

Talvez seja minha honestidade
Ou minha falta de caráter.
Talvez seja as bobagens que faço bêbado
Ou os poemas que escrevo.

Talvez seja porque os anos passem
E eu continue o mesmo.
Talvez seja porque os anos passem
E eu continue com medo.

Talvez seja porque eu ainda te amo
Mesmo não sabendo quem você é.
Talvez seja porque eu ainda me amo
Mesmo não sabendo quem eu sou.
Ou talvez não.

Talvez eu não saiba explicar
Talvez eu não saiba chorar
Não saiba sentir
Não saiba amar.

Talvez eu seja o culpado
Talvez eu esteja condenado
Talvez minha vida esteja acabando
Talvez eu esteja me matando.

Talvez eu pule da ponte
Talvez eu saia de viagem
Talvez eu compre uma passagem
E vá direto pra Bogotá.

Talvez eu vá para o céu
Talvez eu vá para o inferno
Talvez deus eu sobreviva
Talvez eu me vá.

Talvez você volte
Talvez eu me solte
Das garras que insistem
Em me acorrentar.

Talvez porque eu ainda te ame
Mesmo sem saber
Quem você é.

domingo, setembro 23, 2012


Olha só, eu vou me exilar. Eu vou daqui pra outro lugar. Pessoas como eu só funcionam quando estão sofrendo. Eu deixei a minha cidade no Paraná pra vir pra São Paulo, e agora eu quero deixar São Paulo pra ir lá pra fora. Não é nada pessoal contra o Brasil, pelo contrário, eu adoro esse País. A questão é que eu preciso me sentir isolado pra conseguir viver. Eu não fui feito pra ver as coisas darem certo, você entende? Eu aceito a solidão e todos os problemas que ela traz com ela. Eu vejo isso quase como uma benção. Mas eu também vejo como uma maldição. Eu continuo sendo essa pessoa medrosa. Acho que vai ser assim pra sempre. Meu Deus, que alguém me ajude, porque tem sido cada vez mais difícil. Vocês nem imaginam o quanto.