sexta-feira, dezembro 03, 2010

Donnie me dizendo que na verdade eu não tenho nenhum problema, que não há nada de errado comigo, que eu nem imagino o que é sofrimento.
"Cala a boca, Donnie, você não imagina o que eu penso."
Donnie me dizendo que sabe muito bem o que eu penso, que a gente já se conhece há uma porrada de anos,e que o fato de estarmos ali, drogados até a menor parte do cérebro, chafurdando e bebendo igual uns porcos não ia mudar esse fato.
"O fato da gente se conhecer há muito tempo não te faz necessariamente me conhecer."
Donnie diz que sabia que era exatamente esse tipo de bobagem pseudo-superior que eu ia dizer, e que essa era mais uma prova de que ele estava certo.
Peço para Donnie calar a boca e buscar mais uma cerveja. Ele vai até a geladeira, abre uma garrafa e despeja em dois copos. Abre o armário, saca uma garrafa de uísque e joga numa xícara. Os copos acabaram, a pia transborda. Atira duas pedras de gelo e gira pra direita e depois pra esquerda. Nós sempre fazíamos aquela merda de gesto. Era algum tipo de saudação inútil antes de beber o uísque.
Donnie traz os copos e se equilibra como pode, em seu corpo esguio e desastrado já completamente arrasado pelas substâncias a que fora submetido naquela noite. Donnie me alcança o copo de cerveja e dá um gole no uísque. Bebo a cerveja e fico olhando fixamente pra dose de uísque. Donnie não se toca, é mesmo muito burro.
"Você vai me dar a droga do uísque ou não?"
Donnie sorri e diz, "pensei que nunca ia pedir", me esticando a xícara. É inevitável rir da sua cara de pau em me provocar num momento como esses. Rimos juntos. A noite é agradável lá fora. Em breve vai amanhecer, e sabemos que a bad trip vai vir com tudo quando não conseguirmos dormir, pilhados como baterias totalmente carregadas, mas sem nada pra descarregar. Bebo os goles com calma. Uma brisa entra pela janela. Astral Weeks do Van Morrison toca no rádio. Donnie ameaça trocar o som. Faço vista grossa e ele logo entende o recado. Senta ao lado do rádio e fica batendo a cabeça de leve na parede. Acendo um cigarro enquanto isto. Não falamos nenhuma palavra durante algum tempo. Donnie ameaça pegar no sono. Fecha os olhos e encosta na parede. O cigarro chega ao fim. Arremesso a bituca ainda acesa em Donnie. Ela ricocheteia em seu peito e caí em seu colo, ainda em fagulhas. Donnie levanta-se num pulo só e se agita todo.
"Você é idiota, seu porra? Qual é a merda do seu problema? Você quer botar fogo na casa inteira com essa merda de vício nojento, seu bastardo dos infernos?"
Sorrio, e Donnie fica ainda mais puto. Se serve de mais uma dose de uísque, bebe de um gole só e vejo sua feição mudar. Já não está mais puto, está pensativo. Continuamos quietos. Donnie mexe as mãos impacientemente. Ele prepara algum tipo de represália pela bituca. Posso estar bêbado, sob efeito de drogas e completamente exausto, mas ainda consigo reparar nesses detalhes. Vejo sua mão alcançar o copo e arremessá-lo em minha direção com velocidade impressionante. Desvio e por poucos centímetros vejo o copo espatifar-se na parede. Os cacos caem pelo chão.
"Olha só, seu merda, agora você vai ter que limpar isso.", digo para Donnie. Ele finge não ouvir, enquanto se serve de outra dose. Levanto os olhos em direção a geladeira e depois ao armário. Ele entende que quero uma cerveja e uma dose. A casa é minha, o uísque também, estamos quites. Ele aceita a trégua e me serve as bebidas. Arriscamos algum assunto. Não conseguimos prosseguir em nenhuma conversa. Donnie diz que quer ir embora. Nos despedimos cordialmente, e ele saí pela forta afora. Me sento em frente ao rádio e rezo alguma prece inexistente. Donnie pode não acreditar, mas há mesmo algo de muito errado comigo.
Não seria verdade se eu te disesse que tá tudo bem comigo. Não seria verdade se eu disesse que eu não penso em você, que eu não dou a mínima pra o que você tá fazendo aí do outro lado dessa cidade mediana e monótona, mas que mesmo assim, a gente ainda sempre acha um jeito de se perder nessas esquinas estranhas. Não seria verdade se eu te disesse que não tenho medo de morrer, e que não doeu te perder. Não seria verdade dizer que eu não gostaria de estar contigo agora, bebendo num canto tranquilo e te dizendo que apesar de eu ser um grande perdedor e sonhador maluco, você é a minha paixão, e eu te escreveria um milhão de poemas e me jogaria aos teus pés pra fazer você entender isso. Não seria verdade dizer que eu não passo noites sozinhos, afundado nos meus livros, filmes e discos, só curtindo minha solidão e imaginando o que diabos eu fiz de errado pra ser assim como eu sou. E não seria verdade dizer que eu desgosto totalmente de como eu sou. Nada disso seria verdade baby, você pode ter certeza disso. E no fundo você sempre soube que eu só falo a verdade, ou o mais próximo dela. E se eu não estiver mais conseguindo fazer isso, então, pros infernos com as verdades. Que me tragam as mentiras, e que junto delas, venha você. Aí sim, tudo o que eu disesse seria a mais pura verdade. Sem gelo.

quinta-feira, dezembro 02, 2010

Tive um sonho esquisito essa noite. Havia outro show do Paul McCartney, de alguma forma ele era exclusivo para poucas pessoas, mas ainda era no Morumbi. De alguma forma, eu tinha conseguido entrar na pista vip, e estava literalmente escorado na beira do palco. Lembro que o Paul tocou algumas músicas e perguntou qual nós queriamos ouvir. Eu gritei "Maybe I'm amazed" e ele sentou no piano e tocou, e aquilo foi bonito pra caramba. Essa é a única coisa que eu lembro do sonho. Depois eu acordei com uma grande dor do sizo recém-operado. Tomei os remédios e tentei voltar a dormir. Demorei um pouco pra pegar no sono. Coloquei o Revolver pra tocar, E ouvi a partir de Here, There and Everywhere até And Your Bird Can Sing. Desliguei o rádio e ferrei no sono novamente.

quarta-feira, dezembro 01, 2010

penso em você logo quando acordo
porque sei que você não vai estar aqui.
porque sei que você nunca mais vai estar aqui.
penso em você ao longo do dia também.
penso em você quando faço um milhão de coisas qeu talvez você gostaria.
penso em você quando me sinto triste, e quando me sinto feliz também.
penso em você quando estou bêbado, quando preciso de alguém pra me dizer que sou só um estúpido sem coração.
penso em você com outros caras.
penso em você longe daqui.
penso em você porque sei que você
nunca pensa em mim.
penso em você e isso me deixa triste
penso em você e me sinto só
pensar em você dói
pensar em você me deixa cada vez pior.
penso em você com dor no coração.
penso em você quando vou dormir.
penso em você muitas vezes do meu dia
penso em você mesmo sabendo que você
nunca mais vai estar aqui.

segunda-feira, novembro 29, 2010

Wooow, wooow, segura essa então. Eu tava pensando no Kerouac, nos meus quinze anos, ouvindo um disco dos Vibrators e realmente curtindo punk rock de setenta e sete (e que grande ano foi setenta e sete né não?) e eu me sacudia mandando duas doses de natu nobilis pra dentro. Uísuqe barato desce melhor sem gelo do que com. Ou com no máximo uma pedra pra aliviar aquele gosto de cano enferrujado. E tudo isso pensando que "EU SOU DEMAIS, AAAAH!", fazendo assim com a boca tipo "tshaaaa" quando você dá aquele gole estalado de alguma bebida, e fiz isso pensando em um milhão de decepções, mas não tinha grilo, naquele momento eu era quase um santo (acredite se quiser), como dizia Reinaldo Moraes, "um santo sem milagres com os os bolsos vazios", e pensei nela, e pensei em quando ela me deixou, mas nada disso mais importava. Eu não precisava dela. Eu nunca tinha precisado dela até conhecê-la, então porque diabos eu ia precisar agora? Eu não precisava. Então eu pedi mais uma dose e mais uma cerveja pra temperar e puxei um assunto qualquer com o amigo que me acompanha e ah, que maravilha, eu não precisava mais de nada além disso. Que se danassem todas elas. Eu era melhor assim, encostado no balcão do bar, bebendo um destilado e destilando comentários sobre qualquer tipo de bobagem. E woow, no final é isso aí que importa.
me lembro daquele dia cinza e escuro
naquela época eu era só um garoto burro andando por aí.
eu era só um garoto estúpido e sonhador pensando em
ser um escritor.
lembro daquele dia cinza e escuro
eu ainda não te conhecia
eu nem sonhava em te conhecer.
e ah, se você me conhecesse naquela época
você nem imagina, o quão bacana eu era.
eu era só mais um garoto andando por aí
eu era só mais um garoto com uma caneta na mão e uns sonhos impossíveis no coração.
é claro que nada daquilo aconteceu
mas um dia você me conheceu.
e tudo bem, continuou mais ou menos
tudo igual.
e eu acabei me tornando
um cara amargo.
e eu acabei me tornando
um cara errado.
pouco depois, você desapareceu.
bom, eu nunca mais vou ser aquele garoto burro e sonhador.
talvez eu possa continuar burro
mas eu não creio que volte a sonhar.
me lembro daquele outro dia cinza e escuro
em que você me deixou.
você nem imagina o quão difícil é
viver com essa dor.
penso naquele garoto burro e sonhador.
por onde será
que ele ficou?

ouço música alta pra espantar essa solidão

ouço música alta pra espantar a solidão.
ouço as baladas bem alto e canto junto pra esquecer que você se foi.
ouço música alta e bebo alguma coisa pra ver o tempo passar.
acendo um, dois ou três cigarros seguidos e ouço música alta todo esse tempo.
penso em você em outro lugar.
penso em você longe de mim.
eu continuo sozinho
eu continuo aqui
do mesmo jeito
que você me deixou.
ouço música alta pra espantar a solidão.
vejo um filme de ação, leio um livro, faço qualquer coisa
pra tentar te esquecer.
saío pelas ruas, entro em lugares desconhecidos e falo com estranhos
tudo isso pra espantar a solidão.
ouço música alta pra esquecer que você me deixou.
ouço música alta pra esperar que você volte.
infelizmente, você nunca voltou.
ouço música alta e durmo
amanhã é outro dia.
amanhã é outra data.
talvez seja só mais um dia
pra se ouvir música alta.

sexta-feira, novembro 26, 2010

I'm Looking Through You

I'm looking through you, where did you go
I thought I knew you, what did I know
You don't look different, but you have changed
I'm looking through you, you're not the same

Your lips are moving, I cannot hear
Your voice is soothing, but the words aren't clear
You don't sound different, I've learned the game.
I'm looking through you, you're not the same

Why, tell me why, did you not treat me right?
Love has a nasty habit of disappearing overnight

You're thinking of me, the same old way
You were above me, but not today
The only difference is you're down there
I'm looking through you, and you're nowhere

Why, tell me why, did you not treat me right?
Love has a nasty habit of disappearing overnight

I'm looking through you, where did you go
I thought I knew you, what did I know
You don't look different, but you have changed
I'm looking through you, you're not the same

Yeah! Oh baby you changed!
Aah! I'm looking through you!
Yeah! I'm looking through you!
You changed, you changed, you changed!

The Beatles
mas baby, eu ainda tenho muito blues pra escutar antes de tudo acabar.

sexta-feira, novembro 19, 2010

Why do they leave?

Oh why do they leave
Oh why do they leave

On the day that you needed them the most
Simple cards and things
Rosecolored sunsets no flowers for me
Simple cards and things
Rosecolored sunsets no flowers for me
Lover why do you leave
Lover why do you leave

On the day I want you for me
Say say it ain't so
That he will take you tomorrow
And I will sit here today

The worst
Simple cards and things
Rosecolored sunsets no flowers for me
Simple cards and things
Rosecolored sunsets Curtains for me
Lover why do you leave
Lover why do you leave
On the day I want you to be

The one

Ryan Adams