terça-feira, outubro 05, 2010

Dry Londrina

clic clac
saltos lambem a celso garcia
busca de combustível
bruscas falas
grosserias trapaceando diálogos amistosos
a noite desperta
poetas
putas
clockers
sirenes quebram beijos
salve-se quem puder
a gente vai se vê por aí
à noite
todos são meio poetas

Márcio Américo
lamentando numa noite de terça-feira às 21:55.
lamentando num dia de semana como outro qualquer.
lamentando mais um desprezo de mais uma mulher.
lamentando, lamentando
vou vivendo, vou sonhando
acho que agora, eu devia
bolar outro plano
pra me mandar
daqui.
rimas, rimas, rimas
que inferno, baby
você sempre soube
que eu não era de nada.
você sempre soube
que eu era omisso.
e na minha própria cabeça.
e eu também sempre soube disso.

prosa, prosa, prosa
que coisa horrível.
você sempre soube
que eu era
um cara perdido.
você sempre soube
que eu desejava
o impossível.
e agora, o que eu faço?
tudo acabou, ou é escasso.
e dos sonhos
não sobrou nem um pedaço.
que terrível
arraso.
aonde foi que eu errei
nesses últimos anos?
como é que eu fui cometer
tantos enganos?
tão estúpidos
quanto eu
tão estúpidos
quanto assistir televisão
num domingo à tarde.
pensando em garotas
que me deixaram.
pensando em garotas que se foram
e nunca mais voltaram.
pros diabos!
eu devia me mandar
num navio.
eu devia ir mais vezes ao cinema
de preferência
sozinho.
eu devia fazer
um bocado de coisas
mas eu acabo
não fazendo nada.
acho que eu sou só
uma grande piada.
um bêbado insône
rodando pela madrugada.
acho que sou melhor
com um livro na mão
então pros diabos
com a solidão.
dez pra meia-noite me apaixono por meninas
dez pra meia-noite me perco nas esquinas
dez pra meia-noite, pensando em morrer
dez pra meia noite, sonhando com você
dez pra meia-noite, pensando em me mandar
dez pra meia-noite tudo vai
acabar.

vociferando palavras

vociferando palavras
ela diz
que eu não sou de nada.
vociferando palavras
na alta madrugada.
vociferando palavras
e me dizendo
pra deixar de lado
meus sonhos infantis.
pra deixar de lado
o que me faz infeliz.
vociferando palavras
ela me diz
o que eu sempre
quis ouvir.

segunda-feira, outubro 04, 2010

os Byrds tocam no rádio

os Byrds tocam no rádio
enquanto eu, completamente bêbado
faço planos impensados
dentro da minha cabeça
e percebo que se algum dia houve uma chance
bem, esqueça.
dessa vez, não há nada.
de uma forma ou de outra
logo, logo
vem outra garota.
os Byrds tocam no rádio
enquanto eu, completamente bêbado
penso em você
ao meu lado.
é sempre no escuro
que eu penso nas bobagens e nos
mistérios do mundo.

é sempre inseguro
quando eu bebo e dou de cara
com o muro.

e é sempre estranho
quando eu me rendo aos terríveis pensamentos
que me assombram de um jeito tão medonho

e é tão incrível
acordar na casa de um desconhecido
pensando "o que eu fiz pra ser tão sem jeito?
aonde foi parar meu respeito?"

e é tudo isso
uma benção e uma maldição
que te arrebenta com qualquer explicação
de acreditar que sua sina não é errar
de acreditar que alguém ainda vai te amar.
de acreditar que há razão para viver
de acreditar que a sua sina não é sofrer.

e é no final
que você aprende a ser um cara normal
que estar vivo até que não é nada mal.
que tudo isso talvez seja um sinal
pra ser alguém
melhor.

blues dos derrotados

esse é o blues dos derrotados
e eu só sou um mal amado.
se ainda crê em contos de fada,
melhor não ficar do meu lado.

tudo o que eu faço não é pensado
o meu amor não é calculado
sempre me falta um trocado
pra descolar um último trago.

esse é o blues dos derrotados
e eu sou só um cara cansado
de ter o coração quebrado.

te digo que não,
não é verdade o que eles dizem sobre
acreditar na sua razão
quando o que importa é só aquilo
que te acelera o coração.

e eu digo não
quando me dizem que eu sou
o cara errado
que eu fiz tudo parecer mais
estragado
que eu escrevi mais um poema
desolado.

baby eu sou só,
um mal amado
e esse é o blues
dos derrotados.

baby eu sou só,
um derrotado
e esse é o blues
dos mal-amados.

quarta-feira, setembro 29, 2010

uma abelha

suponho que como qualquer garoto
tive um melhor amigo na vizinhança.
o nome dele era Eugene e era muito maior
do que eu e um ano mais velho.
Eugene costumava me encher de porrada.
estávamos sempre brigando.
eu tentava vencê-lo mas sempre sem muito
sucesso.

uma vez pulamos juntos de cma do telhado da garagem
para provar que éramos valentes.
torci meu tornozelo e ele saiu ileso
como manteiga recém-tirada do papel.

acho que a única coisa boa que ele fez por mim
foi quando uma abelha me picou o pé descalço
e assim que me sentei para tirar o ferrão
ele disse,
"vou pegar a filha-da-puta!"

e foi o que ele fez
com uma raquete de tênis
mais um martelo de borracha.

estava tudo bem
dizem que de qualquer modo
elas morrem.

meu pé inchou e dobrou de tamanho
e eu fiquei de cama
rezando para morrer

e Eugene seguiu em frente e se tornou um
almirante ou comandante
de alguma coisa de vulto na Marinha dos Estados Unidos
e conseguiu passar por uma ou duas guerras
sem se ferir.

imagino-o envelhecido agora
numa cadeira de balanço
com seus dentes postiços
bebendo seu leitinho...

enquanto eu bêbado
masturbo esta tiete de 19 anos
que divide a cama comigo.

mas o pior é que
(assim como naquele salto do telhado da garagem)
Eugene segue vencendo
porque ele nem sequer está pensando
em mim.

Charles Bukowski