sexta-feira, agosto 20, 2010

há uma espécie de bêbado por aí
uma espécie de bêbado poético
de bêbado solitário, procurando por afeto.

há uma espécie de bêbado por aí
que não se importa com muitas coisas,
que não se interessa por dinheiro
que comete alguns erros.

há uma espécie de bêbado por aí
que é quase um gênio
encostado no balcão
bebendo uísque com gelo.

há uma espécie de bêbado por aí
que teve sonhos e desesperos
que perdeu garotas, e que tem medo
de continuar sendo
só mais um bêbado.

e é pra esses bêbados
que eu dedico
esse arremedo de versos
patéticos.

e é pra esses bêbados e seus
pensamentos
que eu dedico
esse versos escritos
por outro bêbado
como eu.
It's happening baby
They're putting up the chairs
Zaking the money
And all we can do is pray
Pray for tomorrow

Ryan Adams

terça-feira, agosto 17, 2010

ela me disse
que gostava do meu beijo
e gostava do meu toque.

ela me disse
que gostava de mim
mas que estava confusa
que gostava de mim
mas que a decisão era sua.

ela pediu
um tempo pra pensar
ela pediu
pra eu não me matar.

ela me disse
que gostava de mim
e que eu era importante.

ela me disse
que gostava de mim
que eu não fosse tão errante.

ela pediu
pra eu beber menos
pra eu fumar menos
pra eu não me preocupar
com problemas pequenos.

ela me disse
que eu era especial
ela me disse
que eu era um cara legal.

eu nunca soube
muito bem o que fazer
eu nunca soube
muito bem o que dizer

mas eu gostava dela
ah, eu gostava dela
eu só não sabia
o que fazer.
quantos porres mais
eu tenho que tomar
pra você me amar?

segunda-feira, agosto 16, 2010

se tudo foi em vão
pros diabos com a solidão
eu sou só mais um maluco
procurando a salvação.
Teria dado tudo certo se não tivesse dado tudo errado.

sábado, agosto 14, 2010

Maybe I'm a man and maybe I'm a lonely man
Who's in the middle of something
That he doesn't really understand

Maybe I'm a man and maybe you're the only woman
Who could ever help me
Baby won't you help me understand

Paul McCartney

um bar escuro ao som de Muddy Waters

E você não sabe quantas canções eu cantei sozinho andando por ruas escuras e esperando alguém aparecer no meio de toda essa loucura. Eu sabia que era em vão, sempre soube, mas de alguma forma eu me enganava esperando que algo acontecesse. Eu ouvia o solo do Paul McCartney e pensava na beleza da alma das pessoas e sonhava se alguma delas pensava em algo minimamente parecido. Talvez elas pensassem, talvez todo mundo pensasse nisso antes de dormir e também tivesse pesadelos e desemprego e sonhasse em se mandar por aí com uma mochila nas costas só curtindo e esperando a velhice. Eu tava muito cansado pra divagar sobre qualquer tipo de coisa, então eu só acabava bêbado ouvindo minhas músicas de punk rock favoritas. Eu sempre tinha sido uma pessoa desse jeito, eu não ia mudar agora. Eu não podia mudar agora. Eu só pensava em descansar. Descansar de verdade, definitivamente. Descansar a droga do espírito atormentado pelos piores demônios da alma. Eu só queria mesmo era escrever meia dúzia de poemas sentado no balcão de um bar escuro e quieto com Muddy Waters rolando no fundo. Acho que isso não era pedir muito. Eu não pedia muitas coisas. Eu nunca fui muito dado a rezas. Nunca acreditei que as coisas fossem realmente acontecer. No final a gente só tinha que esperar elas passarem. Elas iam passar. Eu não era feliz, mas quem diabos era? Eu não ligava muito em ter um emprego ou um diploma. Eu tava virando um cara já, eu digo, um cara adulto, e eu ainda morava com a minha mãe e descolava uma graninha pouca em empregos ruins só pra poder beber em paz. Mas eu nunca bebia em paz. Eu não sei porque diabos eu nunca tava em paz. Será que a gente precisava morrer pra ficar em paz? Eu acho que não. Ou talvez sim. Eu sei lá. Eu só gostava dos primeiros discos solo do Paul McCartney. Eu usava uma camiseta do Neil Young e tinha botas de couro gastas mas bonitas pra diabo. Mas ninguém tava muito ligado no Neil Young ou em botas de couro gastas ou em beber uísque e falar sobre poemas estúpidos na mesa de um bar vazio. Ninguém se importava muito em jogar bilhar e tirar sarro dos acionistas. No final eram eles que estavam com as garotas, com os malditos carros importados, as casas na praia e os filhos babando no banco de trás do carro e jogando a droga de um videogame da última geração. Mas nada disso importava quando a gente tinha um livro do Kerouac embaixo do braço e ouvia o Let it Bleed dos Stones no mp3. A gente sabia mais que eles. Eu sabia mais que todos eles. Eu era um gênio, porra. Eu era mais que um gênio. Talvez eu fosse um santo amalucado e demôniaco. Talvez eu não fosse porra nenhuma, mas, whatever, eu gostava de pensar que eu era algo. Eu gostava de ficar quieto no quarto encarando um quadro dos Sex Pistols e dançando um som do Little Richard. Eu gostava de algumas coisas. Porque é que as coisas não gostavam de mim? Eu sei lá. Talvez eu nunca fosse saber. E eu não tinha mais uísque e nem tinha mais muito dinheiro. Eu devia grana pra algumas pessoas, e outras pessoas me deviam grana. Talvez fosse hora de cobrar e de pagar. Eu gosto de honrar com meus compromissos. Se um dia eu ficar te devendo uma, pode deixar que eu vou pagar. De preferência num bar escuro ao som de Muddy Waters.

sábado, agosto 07, 2010

um dia a gente vai ser santo

e ninguém notou a gente
escorado no balcão
de copo na mão
pensando em coisas abstratas
bebendo cerveja gelada
sonhando com as garotas erradas.

e ninguém notou a gente
em hora nenhuma
enquanto a gente pensava
em coisa alguma
só bebendo e curtindo
e rezando e fugindo
do resto da sociedade.

que coisa acontece
na nossa cabeça
que gira sem parar
que fala sem pensar
e que nunca acaba
com a nossa vontade
de se mandar.

eu acho que um dia
a gente vai ser santo
e vai continuar de canto
bebendo uísque barato e
pensando nos lances exatos
que a gente sonhou quando tinha
oito anos de idade.

talvez tudo isso

talvez tudo isso
seja fruto
de coisas que eu fiz
na vida passada.

talvez tudo isso
seja fruto
das minhas muitas
coisas erradas.

talvez tudo isso
seja só um sonho
talvez tudo isso
seja algo estranho.

talvez tudo isso
um dia me ajude.

talvez tudo isso
acabe pra sempre.
talvez tudo isso
seja diferente.

uma
só
vez.