segunda-feira, agosto 16, 2010

Teria dado tudo certo se não tivesse dado tudo errado.

sábado, agosto 14, 2010

Maybe I'm a man and maybe I'm a lonely man
Who's in the middle of something
That he doesn't really understand

Maybe I'm a man and maybe you're the only woman
Who could ever help me
Baby won't you help me understand

Paul McCartney

um bar escuro ao som de Muddy Waters

E você não sabe quantas canções eu cantei sozinho andando por ruas escuras e esperando alguém aparecer no meio de toda essa loucura. Eu sabia que era em vão, sempre soube, mas de alguma forma eu me enganava esperando que algo acontecesse. Eu ouvia o solo do Paul McCartney e pensava na beleza da alma das pessoas e sonhava se alguma delas pensava em algo minimamente parecido. Talvez elas pensassem, talvez todo mundo pensasse nisso antes de dormir e também tivesse pesadelos e desemprego e sonhasse em se mandar por aí com uma mochila nas costas só curtindo e esperando a velhice. Eu tava muito cansado pra divagar sobre qualquer tipo de coisa, então eu só acabava bêbado ouvindo minhas músicas de punk rock favoritas. Eu sempre tinha sido uma pessoa desse jeito, eu não ia mudar agora. Eu não podia mudar agora. Eu só pensava em descansar. Descansar de verdade, definitivamente. Descansar a droga do espírito atormentado pelos piores demônios da alma. Eu só queria mesmo era escrever meia dúzia de poemas sentado no balcão de um bar escuro e quieto com Muddy Waters rolando no fundo. Acho que isso não era pedir muito. Eu não pedia muitas coisas. Eu nunca fui muito dado a rezas. Nunca acreditei que as coisas fossem realmente acontecer. No final a gente só tinha que esperar elas passarem. Elas iam passar. Eu não era feliz, mas quem diabos era? Eu não ligava muito em ter um emprego ou um diploma. Eu tava virando um cara já, eu digo, um cara adulto, e eu ainda morava com a minha mãe e descolava uma graninha pouca em empregos ruins só pra poder beber em paz. Mas eu nunca bebia em paz. Eu não sei porque diabos eu nunca tava em paz. Será que a gente precisava morrer pra ficar em paz? Eu acho que não. Ou talvez sim. Eu sei lá. Eu só gostava dos primeiros discos solo do Paul McCartney. Eu usava uma camiseta do Neil Young e tinha botas de couro gastas mas bonitas pra diabo. Mas ninguém tava muito ligado no Neil Young ou em botas de couro gastas ou em beber uísque e falar sobre poemas estúpidos na mesa de um bar vazio. Ninguém se importava muito em jogar bilhar e tirar sarro dos acionistas. No final eram eles que estavam com as garotas, com os malditos carros importados, as casas na praia e os filhos babando no banco de trás do carro e jogando a droga de um videogame da última geração. Mas nada disso importava quando a gente tinha um livro do Kerouac embaixo do braço e ouvia o Let it Bleed dos Stones no mp3. A gente sabia mais que eles. Eu sabia mais que todos eles. Eu era um gênio, porra. Eu era mais que um gênio. Talvez eu fosse um santo amalucado e demôniaco. Talvez eu não fosse porra nenhuma, mas, whatever, eu gostava de pensar que eu era algo. Eu gostava de ficar quieto no quarto encarando um quadro dos Sex Pistols e dançando um som do Little Richard. Eu gostava de algumas coisas. Porque é que as coisas não gostavam de mim? Eu sei lá. Talvez eu nunca fosse saber. E eu não tinha mais uísque e nem tinha mais muito dinheiro. Eu devia grana pra algumas pessoas, e outras pessoas me deviam grana. Talvez fosse hora de cobrar e de pagar. Eu gosto de honrar com meus compromissos. Se um dia eu ficar te devendo uma, pode deixar que eu vou pagar. De preferência num bar escuro ao som de Muddy Waters.

sábado, agosto 07, 2010

um dia a gente vai ser santo

e ninguém notou a gente
escorado no balcão
de copo na mão
pensando em coisas abstratas
bebendo cerveja gelada
sonhando com as garotas erradas.

e ninguém notou a gente
em hora nenhuma
enquanto a gente pensava
em coisa alguma
só bebendo e curtindo
e rezando e fugindo
do resto da sociedade.

que coisa acontece
na nossa cabeça
que gira sem parar
que fala sem pensar
e que nunca acaba
com a nossa vontade
de se mandar.

eu acho que um dia
a gente vai ser santo
e vai continuar de canto
bebendo uísque barato e
pensando nos lances exatos
que a gente sonhou quando tinha
oito anos de idade.

talvez tudo isso

talvez tudo isso
seja fruto
de coisas que eu fiz
na vida passada.

talvez tudo isso
seja fruto
das minhas muitas
coisas erradas.

talvez tudo isso
seja só um sonho
talvez tudo isso
seja algo estranho.

talvez tudo isso
um dia me ajude.

talvez tudo isso
acabe pra sempre.
talvez tudo isso
seja diferente.

uma

vez.

sábado, julho 31, 2010

Now I'm tired and gettin old
I ain't got much gold
Well maybe things ain't been all that I planned
But God above hear my plea when it's time to judge me
Take a look at these hard hard working hands

Johnny Cash

Acredite, baby

E garota, tu não vai acreditar quando eu te falar sobre todo o tempo que eu passei arquitetando planos imposíveis e inimagináveis, bebendo igual um condenado à cadeira elétrica e pensando nos meus ídolos como verdadeiros santos magníficos e fabulosos igual a James Dean dirigindo rápido seu Cadillac numa estrada californiana em 1952. Era só nesse tipo de coisa que eu pensava quando eu via que as coisas não estavam tomando um bom rumo, e elas não tavam tomando um bom rumo há muito tempo. Eu não sabia muito bem o porque. Eu nunca soube muito bem o porque de muitas coisas.

Mas baby, seria bom se tu acreditasse em mim quando eu digo que eu vi os maiores milagres acontecerem bem diante dos meus olhos em noites silenciosas e solitárias andando por ruas escuras com um cigarro entre os dedos e curtindo um disco do Simon & Garfunkel e pensando em garotas bonitas e garrafas e bebidas. E pensando em vezes que me joguei de carros em movimento e pulei sob orelhões de ruas escuras em madrugadas bêbadas simplesmente porque eu achei que aquilo ia ser bacana e porque alguma voz estúpida na minha cabeça me dizia pra ir em frente e fazer esse tipo de coisa. Mas eu não me importava muito, e afinal, porque deveria? Eu só tinha vinte anos e não tinha muito dinheiro e não tinha muitos planos e a gente sempre tinha algumas cervejas ou uma garrafa de uísque ou de qualqué coisa e o carro tocava o solo do Iggy Pop enquanto a gente só pensava nos nossos planos sonhadores que a gente ainda nem tinha direito. E era provável que nenhum deles viesse a se realizar. Mas que diabos. Não importava muito. Nunca importou. Nós eramos um bando de malucos correndo contra a correnteza. Eu era um maluco que acreditava em salvação pela poesia, mas eu nem sabia muito bem que diabos era a poesia. Eu sabia do que eu gostava. Eu sabia que queria ser como os Ramones, que queria escrever um livro tão bom quanto Pergunte Ao Pó e ter uma garota que me tirasse o folêgo e gostasse de mim e me ajudasse a não pensar mais em me jogar de janelas ou me enforcar com lençóis ou cordas velhas. Era nesse tipo de coisa que eu pensava quando andava por aí. Era nesse tipo de coisa que eu pensava quando me sentava em frente ao computador numa ressaca daquelas e ouvia dois blues do Buddy Guy enquanto destoava minhas bobagens solitárias & mal escritas de um jeito caótico e meio sem jeito, mas cê pode acreditar em mim quando eu digo que - É totalmente sincero.

E baby, eu só vou dizer mais uma vez, que é pra você e qualquer pessoa ter certeza. Eu não sou lá essas coisas, eu nunca fui lá essas coisas e eu provavelmente nunca vou ser lá grandes coisas, mas pro inferno com tudo isso! Eu gosto de falar sobre maluquices espirituais mesmo não acreditando em muitas coisas e nem tendo uma religião e nem sabendo rezar. E eu gosto de ouvir música, principalmente rock and roll, e acreditar que caras como Joe Strummer e Paulo Leminski estão lá em cima olhando por nós aqui embaixo. E a gente pode ser maluco pra caramba, mas a gente não é doido de desacreditar nesse tipo de coisa. A gente não é doido de abandonar tudo isso e entrar pra uma igreja ou parar num hospício ou num cemitério antes da gente completar trinta e dois anos. E acredite quando eu digo, baby, que às vezes só o que a gente tem que fazer é acreditar.

quarta-feira, julho 28, 2010

antes que fosse tarde demais pra nunca mais chorar

E eu chorei por não ser Jack Kerouac, por não ser John Fante, por não ser Lou Reed. Chorei por ser eu mesmo, por não ser ninguém importante, por não fazer nada importante, por não ser interessante. Eu chorei por todos os sofredores e todos os santos do mundo. Eu chorei por acreditar em verdades superiores e em espaços cósmicos. Chorei por baladas country e lamentos de blues. Chorei todas as vezes em que pensei nas garotas que não tive e nos porres que tomei. Chorei pensando no meu emprego de merda, em pegar o ônibus, em andar na rua. Chorei porque eu gostava de ser quem eu era e por as pessoas não gostarem assim também. Chorei por me importar com coisas estúpidas e por não me importar com várias outras. Chorei porque o mundo era cruel e nós todos eramos egoístas e cretinos o suficiente pra não ligar muito pra qualquer outra coisa que não fossemos nós mesmos. Chorei porque eu sabia que nada disso valia a pena. Porque eu sabia que o inferno não existia, e se o inferno não existia o céu também não existia, e nada fazia nenhum sentido. Chorei por nada fazer sentido, chorei por existir. Chorei porque eu simplesmente achei que fosse ser melhor assim. Porque eu era uma má pessoa e eu tinha sido uma má pessoa durante muito tempo. Chorei por não ter acreditado em muitas coisas. Chorei por meus livros, por meus discos, por meus filmes. Chorei por Arturo Bandini, por Sal Paradise, por Henry Chinaski e por mim mesmo. Chorei porque era a única coisa a se fazer. Chorei porque era a última coisa a se fazer. Chorei antes que fosse tarde demais pra nunca mais chorar.

Visões de Cody

Música, sax, saxes, luzes tremeluzentes, trompetes, vozes, luzes, chacoalhões; tudo está acontecendo; vozes, músicas, iik, girafas, zoológicos, circos, cães, estacionamentos, galreios, casinhas de brinquedo, jubileu, uma grande raposa vermelha, o nariz vermelho, o grande Jack Little, meninos e meninas, o Brooklyn Dodgers, alegria, verão, Nova York, casquinhas de sorvete, blues nos velhos saloons de Nova Orleans, curtos, no bar, King Cole, histórias do ringue; fumaça de charutos, capas de couro para os isqueiros, uma bolsa de golfe; poeirinhas, as bonequinhas e as poeiras no chão, tão tristes, (sarapintadas) minúsculas salpicadas, sobre os brinquedos no chão, os brinquedinhos das crianças sempre misterificam o lugar que ocupam, uma alma que respira desejou a eles uma identidade e os brinquedos portanto vivem. Escuta, eu queria ir para o céu, tem bem mais pessoas mortas do que vivas; será que olhos mortos vêem? Olhos mortos vêem.
E a chuva dorme.

Jack Kerouac

segunda-feira, julho 19, 2010

fragmentos de uma conversa alcolizada

A gente fica esperando que algo de bom aconteça de repente, seja na internet, numa cerveja no boteco mais sujo do mundo ou na fila do banco pra pagar uma conta atrasada. A gente só espera conhecer uma garota muito foda ou que algo dê muito certo, e a gente fica esperando essas bobagens o tempo todo. É tipo aquela bobageira de menininha esperando princípie encantando, mas a gente só espera uma boa garota, que tenha um corpo legal e seja bonita e curta umas coisas bacanas e divida umas bebidas e te dê uma razão pra acreditar em alguma coisa.